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Quando as avaliações médicas são normais, mas o corpo mostra o contrário: sobre o sintoma como a via possível para o que ainda não pôde ser elaborado

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Há uma experiência que muita gente conhece e poucos sabem nomear: o cansaço que não passa com o sono, a dor que acompanha e atrapalha os planos, fisgadas que aparecem nos mesmos momentos ou mesmo em momentos aleatórios, o constante adoecer, a pele muito sensível e inflamada ou que não cicatriza, os cabelos que fogem da cabeça, o intestino que não funciona bem, falta de ar e sensação de mal-estar. Vai ao médico. Faz exames. As avaliações vêm normais. Mas os sintomas sem explicação médica continuam lá, reais e incómodos.

Isto não é imaginação, nem exagero, nem “estar só nervoso”. É, muitas vezes, o corpo a carregar algo que ainda não encontrou outra forma de se exprimir.

O corpo fala primeiro

Há sintomas que aparecem precisamente quando falta um caminho melhor de negociação, expressão e elaboração para a pessoa. É uma forma encontrada de lidar com determinados contextos vivenciados pelo indivíduo em questão, sejam esses contextos marcantes ou acumulados do dia a dia. Naquele momento, a via do corpo, pelos sintomas, pareceu ser suportável — ou mais suportável que alguma outra forma de viver o contexto em que a pessoa estava inserida — ou ainda, a única forma possível.

O corpo, nestas alturas, não está a “fingir” uma doença: está a comunicar por outra via (por vezes a única disponível até então) algo que ainda não teve como ser percebido e devidamente elaborado. Até encontrar um caminho para isso acontecer, permanece contido, causando efeitos indesejados e danosos.

Sintomas e adoecimentos sem uma causa orgânica claramente identificável não significam que a dor e o sofrimento sejam menores. Significam apenas que a origem não está onde os exames médicos costumam procurar. Ainda assim, é importante dizer que mesmo os sintomas e adoecimentos facilmente explicados pelo viés orgânico (material) têm uma dimensão psíquica associada.

O que a psicanálise já observou sobre isto

Esta forma de ver tem raízes profundas na psicanálise. Já no início do século XX, o médico e psicanalista Georg Groddeck defendia que corpo e mente formam uma unidade inseparável — uma ideia tão influente que ajudou a moldar o próprio conceito de inconsciente de Freud. Décadas mais tarde, tanto a psicanalista Joyce McDougall como os médicos e psicanalistas Pierre Marty e Michel de M’Uzan desenvolveram esta intuição de forma mais específica, formando uma base clínica que se tornou central na psicossomática psicanalítica contemporânea.

McDougall descreveu este tipo de sintomas sem explicação médica como uma espécie de solução de compromisso — uma forma que o psiquismo encontra para sobreviver a uma dor que, de outro modo, seria insuportável de sentir ou de nomear. Marty e M’Uzan, por sua vez, descreveram como certos estados de esgotamento emocional podem levar a um funcionamento mental mais “operatório” — pobre em fantasia e em elaboração simbólica —, no qual a reação do corpo substitui aquilo que a mente, naquele momento, não consegue processar de outra forma.

Ambas as perspetivas partem da mesma ideia de fundo que já explorámos a propósito da fachada e do falso self: há uma ligação entre aquilo que não pode ser sentido ou dito, e aquilo que, ainda assim, precisa de encontrar uma saída.

Sintomas sem explicação médica são mais comuns do que imagina

Os números confirmam que isto está longe de ser incomum. Um estudo conduzido em cuidados de saúde primários em Portugal encontrou sintomas físicos sem explicação orgânica identificável em 8% das consultas observadas. Esse número sobe significativamente quando se somam quadros com componente parcialmente inexplicada. Na literatura científica brasileira, que reúne dados internacionais amplamente citados, estima-se que os sintomas inexplicados representem entre um quarto e metade de todas as consultas, tanto em cuidados primários como em cuidados especializados.

Ainda assim, é frequente que quem vive isto ouça, direta ou indiretamente, que “não tem nada”, ou que devia simplesmente “relaxar mais”. Isso raramente ajuda. Aliás, muitas vezes, acrescenta uma camada extra de sofrimento: a de não ser levado a sério, para além de já não se sentir bem.

Não é escolha, nem é fraqueza

Quero ser direta aqui: ninguém decide somatizar. Não é uma opção consciente, nem um sinal de fragilidade de carácter. É, com frequência, a única forma que o corpo encontrou de expressar algo que a mente, sozinha, ainda não conseguiu elaborar. Reduzir esta experiência a “estar só com a cabeça a mais, estressado” ou a uma tentativa de chamar a atenção, é desconhecer como estes processos realmente funcionam e tentar abafar a situação.

O que pode ajudar a mudar isto

Nunca parti de uma escola psicanalítica única e fechada — a teoria só me interessa quando serve quem tenho à minha frente. No meu trabalho com contextos assim, onde sintomas e o adoecimento estão presentes, isto significa não tratar o corpo como um problema à parte da história de quem o habita. Mas sim, criar espaço para que aquilo que ainda não foi percebido, ou que ainda não tinha palavras, possa aos poucos encontrá-las e elaborá-las — sem necessidade de “provar” que a dor dói, ou que o adoecimento é real.

Se este texto lhe soou familiar, se reconhece este sintoma sem explicação médica, que os exames não conseguem explicar — ou só conseguem explicar até certo ponto —, talvez valha a pena conversarmos.


Fontes consultadas:
Groddeck, G. (1923). Das Buch vom Es [O livro do Isso]. Internationaler Psychoanalytischer Verlag.
Marty, P., & M’Uzan, M. (1963). La pensée opératoire. Revue Française de Psychanalyse, 27(especial), 345-356.
McDougall, J. (2000). Teatros do corpo: o psicossoma em psicanálise. Martins Fontes.
Nunes, J. M., Yaphe, J., & Santos, I. (2013). Sintomas somatoformes em medicina de família: um estudo descritivo da incidência e evolução em uma unidade de saúde familiar de Portugal. Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, 8(28), 164-171.

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