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Mesmo com provas de que é capaz, sente que não é o suficiente: a chamada síndrome do impostor engana a si próprio

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Cumpre objetivos. Recebe o reconhecimento. Consegue o que se propôs. E, ainda assim, por dentro, algo insiste: “tive sorte”, “ainda não descobriram”, “não sou assim tão capaz como pensam”. Não importa quantas provas em contrário se acumulem, o sentimento de estar a enganar toda a gente não desaparece.

Isto não é falta de confiança comum, nem modéstia. É um padrão com nome próprio, estudado há quase cinco décadas, e que afeta muito mais gente, e de formas muito mais variadas, do que normalmente se pensa.

Não é sobre estar a mentir a ninguém

A expressão mais usada para isto é “síndrome do impostor”. Embora, valha a pena dizer-se, não seja um diagnóstico oficialmente reconhecido, mas antes um padrão psicológico amplamente estudado e discutido, e que causa limitações reais. Descreve a sensação persistente de que o próprio sucesso não é merecido, ou até de que, mais cedo ou mais tarde, os outros vão perceber que, afinal, “não se é assim tão capaz” ou “se é uma farsa”.

O que torna este padrão particularmente difícil é que não cede à evidência. Um elogio sincero, uma promoção, uma conquista clara: nada disto costuma bastar para o dissolver. Pelo contrário: para quem o vive, cada novo sucesso pode até aumentar o medo de ser “descoberto”, precisamente por ficar mais em evidência, sem conseguir ver-se como autêntico, nem os seus resultados como legítimos. Parece que há sempre algo importante em falta, que não encaixa.

Como isto começou a ser estudado

O termo foi criado em 1978, pelas psicólogas Pauline Clance e Suzanne Imes, num estudo com mulheres de elevado desempenho académico e profissional que, apesar de currículos notáveis, continuavam convencidas de que não eram verdadeiramente capazes, e de que tinham, de alguma forma, enganado toda a gente à sua volta. Desde então, a investigação alargou-se muito para lá desse grupo inicial: sabe-se hoje que este padrão atravessa géneros, profissões, e também contextos fora do trabalho, como a maternidade, a paternidade, as relações, a vida académica de quem começa algo novo.

Do ponto de vista psicanalítico, uma leitura possível remete para o conceito freudiano de supereu: a instância interna que julga, exige e compara, e que pode tornar-se uma espécie de crítico implacável, nunca satisfeito, independentemente do que se realize. Quando esse crítico interno é particularmente rígido e severo, nenhuma conquista externa consegue alcançá-lo ou aplacá-lo: a distância entre o que se sente por dentro e o que se demonstra por fora mantém-se, mesmo quando os factos apontam noutra direção.

Quando uma conquista nasce mais de uma resposta em busca de satisfazer o que se acredita ser esperado de nós, do que de um sentir genuinamente próprio, é natural que, por dentro, ela nunca chegue a parecer completamente sua.

Mais comum do que se costuma admitir

Uma revisão sistemática de 2020, que analisou dezenas de estudos sobre este tema, encontrou taxas de prevalência que variam largamente consoante a população estudada, chegando, nalguns grupos, a ultrapassar os dois terços das pessoas avaliadas. Os próprios autores da revisão notam que este padrão está associado a maior ansiedade, sintomas depressivos, e menor satisfação no trabalho.

Ainda assim, é um dos temas de que menos se fala abertamente, precisamente porque, a quem o vive, admiti-lo parece uma confissão do que mais teme: a de não ser tão capaz ou de ser uma farsa.

Não é exclusivo de quem “tem sucesso”

Embora o estudo original se tenha debruçado sobre mulheres de destaque académico, seria um erro pensar que este padrão pertence apenas a quem ocupa cargos de topo ou tem currículos invejáveis. Ele aparece sempre que existe uma distância entre o que se realiza e o que se sente merecer: existe uma distorção e uma dificuldade de autoperceção, de se ver de forma condizente com os factos. E essa distância não escolhe nível de sucesso, seja qual for a área. Aparece em quem lidera uma empresa, e aparece em quem, pela primeira vez, sente que está a dar conta da própria vida sem saber bem como. Aparece até nos relacionamentos e na vida social: entre quem se é em “casa” e quem se é “lá fora”.

O que pode ajudar a mudar isto

Neste tipo de sofrimento, é superficial e efémero tratar a “síndrome do impostor” como um problema a corrigir com mais confiança ou mais provas de competência. Afinal, isso já foi tentado várias vezes, e não costuma resolver nada por muito tempo. Significa antes compreender de onde vem esse crítico interno tão severo que gera uma constante sensação de insuficiência, e criar espaço de apropriação egóica que o fará sentir-se mais genuíno e trará mais liberdade. Desta forma, passa a ser possível sentir naturalmente as suas conquistas como legítimas, e isso alimenta uma forma de estar mais genuína e potencializadora dos seus objetivos de vida.

Se reconhece essa sensação de nunca ser o suficiente, por mais que até consiga resultados que mostrem o contrário, talvez valha a pena conversarmos.

Fontes consultadas:

  • Clance, P. R., & Imes, S. A. (1978). The imposter phenomenon in high achieving women: Dynamics and therapeutic intervention. Psychotherapy: Theory, Research and Practice, 15(3), 241-247.
  • Bravata, D. M., Watts, S. A., Keefer, A. L., Madhusudhan, D. K., Taylor, K. T., Clark, D. M., Nelson, R. S., Cokley, K. O., & Hagg, H. K. (2020). Prevalence, predictors, and treatment of impostor syndrome: A systematic review. Journal of General Internal Medicine, 35, 1252-1275.
  • Freud, S. (2011). O ego e o id (P. C. de Souza, Trad.). In Obras completas, volume 16: O ego e o id e outros textos (1920-1923). Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1923)

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