Uma mensagem fica sem resposta durante umas horas, e o corpo reage como se fosse o fim de tudo. Uma pessoa que ontem parecia a mais próxima do mundo, hoje parece distante e fria, e a mudança acontece num instante. Gosta-se de alguém com todas as forças e, quase ao mesmo tempo, teme-se que essa pessoa vá embora, ou passa-se, de repente, a não gostar nada dela. Por vezes, nem se sabe bem quem se é, porque parece depender de quem está por perto. E, por baixo de tudo, um vazio que não se explica.
Quem vive assim costuma ouvir que é “demasiado sensível”, “dramático” ou “difícil”. E, tantas vezes, já tentou controlar-se, sem conseguir, e carrega a vergonha disso em silêncio.
A psicanálise e a psiquiatria deram um nome a esta forma de sofrer: borderline. É um nome pesado, que pode assustar ou estigmatizar. Por isso vale a pena perceber de onde vem, o que realmente descreve, e o que se sabe hoje sobre como se vive melhor com isto.
Um nome que nasceu de uma dificuldade em classificar
A palavra “borderline”, que significa “fronteira”, surgiu em 1938, num artigo do psicanalista Adolph Stern. Stern observava pessoas que não cabiam bem nas categorias que a clínica da época usava, e que pareciam situar-se numa zona de fronteira entre formas de sofrimento diferentes. O nome ficou, mas nasceu de uma dificuldade de classificação e não de uma descrição de quem a pessoa é.
Hoje, o manual de diagnóstico da psiquiatria (DSM-5-TR) reconhece-o como perturbação da personalidade borderline (no Brasil, transtorno). Estudos no Reino Unido e nos Estados Unidos apontam para cerca de 1% a 1,6% da população adulta (NICE, 2009; Lenzenweger et al., 2007), o que significa que é mais comum do que se imagina, e que muitos de nós conhecemos alguém que o vive, mesmo sem o saber.
Convém dizer com clareza: um nome serve para orientar quem cuida, não para definir uma pessoa. Quem recebe este diagnóstico não é “uma borderline”. É alguém que sente muito, e que ainda não encontrou forma de lidar com a força do que sente.
Quando a proximidade é, ao mesmo tempo, o que se procura e o que ameaça
Um dos aspetos mais difíceis de viver é a contradição: precisar muito dos outros e, ao mesmo tempo, sentir-se em risco quando eles estão perto. Quando alguém é importante demais, qualquer sinal de distância pode soar a abandono. E, para se proteger, a mente tanto se agarra como se afasta.
O psiquiatra e psicanalista Otto Kernberg, partindo da ideia de clivagem que Melanie Klein descrevera em 1946, mostrou em 1967 como, nestas pessoas, a mente tende a guardar separadas as imagens boas e as imagens más de alguém e de si próprio, como se não pudessem coexistir (Kernberg, 1967; Klein, 1946). Isto ajuda a compreender viragens como as que descrevemos no início: enquanto uma pessoa é sentida como inteiramente boa, é idealizada, e com uma desilusão passa a ser sentida como inteiramente má.
O pediatra e psicanalista Donald Winnicott, em 1974, escreveu sobre o medo do colapso: a ideia de que, muitas vezes, aquilo que se teme que aconteça no futuro já aconteceu, em tempos muito precoces, numa altura em que ainda não havia forma de o pensar ou de o suportar. Se esta ideia for verdadeira em cada caso, só uma história singular o pode dizer. Mas ajuda a compreender porque uma situação aparentemente pequena, como uma mensagem sem resposta, pode despertar uma dor que parece desproporcional ao momento: não é só o presente que está a doer.
Isto não quer dizer que alguém tenha falhado de propósito. Muitas vezes, ninguém falhou: o cuidado pode ter sido insuficiente, inconstante ou difícil de sentir como seguro, por razões que ninguém controlava. Reconhecer isso não serve para encontrar culpados, serve para compreender.
O psicanalista Peter Fonagy e o psiquiatra Anthony Bateman acrescentam outra peça: a mentalização, que é a capacidade de compreender o que se passa na própria mente e na dos outros, sem confundir um com o outro. Segundo a sua proposta (Bateman & Fonagy, 2004), nas pessoas que vivem esta dificuldade, essa capacidade tende a falhar precisamente quando as emoções são mais fortes e quando a ligação a alguém está em jogo. Nesses momentos, torna-se difícil pensar “talvez a pessoa só esteja ocupada”, e a mente fica refém da pior leitura possível.
A intensidade como sinal de que há muito a dizer
A intensidade emocional que se vive é real, com impactos reais nas relações, na carreira e na saúde, e nenhuma forma de sofrimento é mais ou menos legítima do que outra. O que muitas vezes falta é um lugar seguro onde essa intensidade possa ser dita, compreendida e trabalhada devidamente, em vez de ser julgada ou temida, e uma pessoa que permaneça presente apesar dela.
Por isso, na clínica, uma parte essencial do trabalho é a própria relação terapêutica e o tato clínico do psicanalista, que deve ser necessariamente apurado e proporcionar aspetos como um espaço estável, que se repete com regularidade, onde a emoção pode surgir sem que o outro desapareça, entre outros. Para quem teme ser abandonado, viver essa experiência, repetidamente, tem um valor que as palavras sozinhas não têm, e a partir daqui o processo de melhoria pode avançar.
O psicanalista e psiquiatra Wilfred Bion descreveu esta função com a ideia de continente: uma mente capaz de receber aquilo que o outro ainda não consegue pensar nem suportar, de o acolher sem se desorganizar, e de o devolver de forma mais suportável (Bion, 1962).
O que o tempo mostra
Uma das notícias mais importantes, e menos conhecidas, é esta: este quadro não é uma condição fixa. Num estudo com cerca de quarenta pessoas, umas fizeram um programa de acompanhamento de orientação psicanalítica e outras o acompanhamento habitual. Oito anos depois do início, e cinco anos depois de o tratamento terminar, só 13% das pessoas do primeiro grupo ainda tinham o diagnóstico, contra 87% das do segundo grupo (Bateman & Fonagy, 2008). A amostra é pequena e são necessários mais estudos, mas os resultados apontam para que um acompanhamento de orientação psicanalítica possa fazer uma diferença duradoura.
Isto não significa que o caminho seja curto nem linear. Significa que não é uma condição fixa, nem uma sentença, ou seja, existe espaço para a cedência de sintomas, a melhoria das relações e uma maior qualidade de vida.
O que pode ajudar
Há resultados documentados. Num ensaio clínico, cerca de cem mulheres com este quadro foram acompanhadas durante um ano. Metade fez uma psicoterapia de orientação psicanalítica, desenvolvida por Kernberg e colegas, e a outra metade foi acompanhada por outros psicoterapeutas experientes da comunidade. Quem fez a psicoterapia psicanalítica desistiu menos do tratamento (38,5% contra 67,3%), e no fim do ano mais pessoas deixaram de ter os critérios do diagnóstico de borderline (Doering et al., 2010). O ensaio foi realizado com um grupo pequeno e só de mulheres, mas sinaliza um caminho de melhoria para pessoas com este quadro.
É importante estar em acompanhamento psicoterapêutico psicanalítico, com um enquadramento que proporcione regularidade, um espaço onde a emoção não assusta quem escuta, e tempo suficiente para que a confiança se vá construindo, mesmo quando é testada.
Se se reconhece nesta intensidade, ou se alguém que lhe é próximo vive assim, talvez valha a pena conversarmos.
Se estiver a atravessar um momento de sofrimento muito intenso, ou se tiver pensamentos de se magoar, procure ajuda de imediato: em Portugal, a linha SNS 24 (808 24 24 24), com opção de aconselhamento psicológico; no Brasil, o CVV (188).
Fontes consultadas:
- American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5.ª ed., texto revisado).
- Bateman, A., & Fonagy, P. (2004). Psychotherapy for borderline personality disorder: Mentalization-based treatment. Oxford University Press.
- Bateman, A., & Fonagy, P. (2008). 8-year follow-up of patients treated for borderline personality disorder: Mentalization-based treatment versus treatment as usual. American Journal of Psychiatry, 165(5), 631-638.
- Bion, W. R. (1962). Learning from experience. Heinemann.
- Doering, S., Hörz, S., Rentrop, M., Fischer-Kern, M., Schuster, P., Benecke, C., Buchheim, A., Martius, P., & Buchheim, P. (2010). Transference-focused psychotherapy v. treatment by community psychotherapists for borderline personality disorder: Randomised controlled trial. British Journal of Psychiatry, 196(5), 389-395.
- Kernberg, O. (1967). Borderline personality organization. Journal of the American Psychoanalytic Association, 15(3), 641-685. https://doi.org/10.1177/000306516701500309
- Klein, M. (1946). Notes on some schizoid mechanisms. International Journal of Psycho-Analysis, 27, 99-110.
- Lenzenweger, M. F., Lane, M. C., Loranger, A. W., & Kessler, R. C. (2007). DSM-IV personality disorders in the National Comorbidity Survey Replication. Biological Psychiatry, 62(6), 553-564.
- National Institute for Health and Care Excellence. (2009). Borderline personality disorder: Recognition and management (Clinical guideline CG78). NICE.
- Stern, A. (1938). Psychoanalytic investigation of and therapy in the border line group of neuroses. Psychoanalytic Quarterly, 7, 467-489.
- Winnicott, D. W. (1974). Fear of breakdown. International Review of Psycho-Analysis, 1(1-2), 103-107.
ções intensas, Relações, Sofrimento invisível,

