Sempre a mesma história, mesmo com pessoas ou em situações diferentes: sobre a compulsão à repetição

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Muda-se de emprego, e o mesmo tipo de conflito com chefias volta a aparecer. Muda-se de parceiro, e certas discussões parecem ser sempre as mesmas, porém com outra pessoa à frente. Promete-se a si mesmo que desta vez vai fazer diferente, e ainda assim, sem perceber bem como, a história repete-se. Não parece coincidência, e a verdade é que provavelmente não é.

Este padrão tem nome em psicanálise, e é um dos mais antigos e mais estudados da teoria: a compulsão à repetição.

Uma descoberta que surgiu do que não fazia sentido

Freud descreveu este conceito em 1920, na obra “Além do Princípio do Prazer”, a partir de algo que o intrigava clinicamente: porque é que certos pacientes, e até pessoas em geral, parecem repetir situações dolorosas, em vez de as evitarem, se a mente humana é suposta procurar prazer e afastar-se do sofrimento? Observou isto em sonhos de pessoas traumatizadas, que reviviam repetidamente o acontecimento doloroso, e num jogo infantil simples, em que uma criança repetia sem parar o desaparecimento e o regresso de um objeto, como se precisasse de dominar, através da repetição, algo que viveu de forma passiva e angustiante.

A partir destas observações, Freud concluiu que existe, na mente, algo que insiste em repetir, mesmo contra o interesse óbvio da pessoa em ser feliz ou evitar sofrimento.

A única forma de amor conhecida

O psiquiatra e psicanalista Fairbairn ajuda a compreender porque é que esta compulsão aparece com tanta frequência nas relações. Segundo a sua teoria, o psiquismo não se liga aos outros apenas à procura de prazer, mas sobretudo à procura do que lhe é familiar, mesmo quando esse familiar dói. Se os primeiros vínculos de uma pessoa envolveram, por exemplo, alguém emocionalmente distante, ou uma exigência de mérito constante para se sentir amada, é esse padrão, e não outro, que representa, para o inconsciente, a própria forma de amor e de ligação conhecida. No sofrimento familiar sente-se seguro e previsível, enquanto o novo, mesmo quando é saudável, pode parecer estranho, ou uma ameaça a essa lealdade profunda aos primeiros vínculos da vida.

Isto explica algo que confunde muita gente: como é possível escolher, repetidamente, pessoas ou situações parecidas com aquelas que fizeram sofrer no passado? Não é falta de discernimento. É que a mente, nestes casos, reconhece o familiar mais depressa do que reconhece o que seria, na verdade, bom para ela.

A raiva e a culpa de não conseguir parar

Quem vive este padrão conhece bem uma dor específica: prometer a si mesmo que desta vez vai ser diferente, e ainda assim ver-se de novo no mesmo lugar. Isto costuma trazer raiva, dirigida a si próprio, e uma culpa pesada, como se o padrão fosse uma espécie de perseguição da qual não se consegue escapar. A psicanalista Melanie Klein ajuda a compreender esta sensação: descreveu como a raiva e a culpa, quando não encontram forma de ser reparadas, tendem a alimentar um ciclo onde a pessoa se pune e se autossabota, sem perceber, através da própria repetição, e onde isso pode alimentar estados de ansiedade ou de desânimo mais profundo. Não é fraqueza de carácter. É um ciclo que se sustenta a si mesmo, precisamente por não ter sido, até agora, compreendido na origem.

Uma repetição que também é esperança

Há ainda uma leitura mais compassiva deste padrão, trazida pelo pediatra e psicanalista Donald Winnicott. Para Winnicott, repetir um cenário difícil pode ser um movimento de esperança não declarada, de regressar ao ponto exato em que algo ficou por resolver, no desejo de que, desta vez, o contexto ou a relação aguentem o suficiente para que aquilo possa finalmente ser integrado e ultrapassado.Vista desta forma, a repetição não é só um fracasso a repetir-se. É, também, uma parte da pessoa que continua, teimosamente, à procura de uma resolução diferente.

Não é falta de aprendizagem

Um erro comum é pensar que quem repete um padrão assim “não aprendeu a lição”. Mas a compulsão à repetição não opera ao nível da aprendizagem consciente. A pessoa pode saber perfeitamente, do ponto de vista racional, o que devia evitar, e ainda assim repetir. Wilfred Bion ajuda a perceber porquê: descreveu que há experiências que a mente nunca chegou a transformar em pensamento, e que por isso não podem ser propriamente recordadas, só revividas. Para o psiquismo, nestes casos, não é como lembrar um episódio antigo: é como se esse episódio estivesse, de alguma forma, ainda a acontecer agora, e a única via disponível para lhe dar alguma saída é através da ação, repetindo-o, em vez de o pensar. É por isso que saber, racionalmente, o que se devia evitar raramente basta: aquilo que se repete nunca chegou a ser propriamente elaborado, integrado e superado.

O que pode ajudar a mudar isto

Reconhecer o padrão, por si só, raramente é suficiente para o interromper. Quantas vezes já se prometeu a si mesmo que aquilo terminava ali, que não se repetiria, que desta vez seria diferente. Isso já foi tentado por quase toda a gente que vive isto, e a repetição continua, e acaba por alimentar mais frustração, mais ansiedade e mais desânimo, ou mesmo a prejudicar de forma irreversível as relações. O que costuma ajudar é um espaço de escuta clínica cuidadosa, onde se torna possível perceber de onde vem aquilo que se repete, porque é que continua a parecer necessário, e onde esses padrões podem finalmente ganhar um destino diferente, dentro da própria relação terapêutica. Viver um processo psicanalítico torna possível escolher o que é genuinamente melhor e saudável para si, e não apenas repetir.

Se reconhece este padrão, sempre a mesma história, com pessoas ou contextos diferentes, talvez valha a pena conversarmos.

Fontes consultadas:

  • Bion, W. R. (1962). A theory of thinking. International Journal of Psycho-Analysis, 43, 306-310.
  • Fairbairn, W. R. D. (1952). Psychoanalytic studies of the personality. Tavistock Publications.
  • Freud, S. (2010). Além do princípio do prazer. In Obras completas, volume 14: História de uma neurose infantil (“O Homem dos Lobos”), Além do princípio do prazer e outros textos (1917-1920) (P. C. de Souza, Trad.). Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1920)
  • Klein, M. (1996). Amor, culpa e reparação e outros trabalhos. Imago. (Trabalho original publicado em 1937)
  • Winnicott, D. W. (1999). Privação e delinquência (A. Cabral, Trad.). Martins Fontes. (Trabalho original publicado em 1956)

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