Há um tipo de sofrimento que não pede licença. Não interrompe reuniões, não falta a compromissos, não deixa de fazer o que precisa ser feito. Está lá, mas por dentro. Enquanto por fora a vida continua a acontecer com a “normalidade” que se espera dela: o trabalho é feito, os filhos são levados à escola, as mensagens têm resposta, o sorriso aparece quando é preciso.
Isto não é uma questão de sucesso ou de desempenho elevado. Acontece a quem lidera uma equipa e acontece a quem simplesmente está a tentar, dia após dia, dar conta da própria vida e dos que dependam de si. O que têm em comum não é o quanto conseguem, mas o quanto escondem enquanto conseguem.
Aguentar não é o mesmo que estar bem
É fácil confundir as duas coisas, porque a forma como costumamos avaliar como alguém está se baseia no que se vê: se cumpre, se comparece, se responde. Mas funcionar e estar bem são fenómenos diferentes – por vezes até opostos, porque manter tudo a funcionar pode ser precisamente a forma como alguém evita sentir o quanto já não está bem.
Os números confirmam que este não é um fenómeno raro, nem exclusivo de um país. Segundo dados da Direção-Geral da Saúde, cerca de 21% da população portuguesa apresenta algum tipo de perturbação de ansiedade, e 17% sofre de sintomas depressivos – valores entre os mais elevados da Europa. No Brasil, a Organização Mundial da Saúde aponta um cenário ainda mais expressivo: o país tem a maior prevalência de ansiedade do mundo, com cerca de 18 milhões de brasileiros (9,3% da população) a conviver com a condição, e outros 12 milhões afetados por depressão. São mais de 546 mil afastamentos por saúde mental em 2025 no Brasil.
Em ambos os países, as perturbações mentais estão hoje entre as principais causas de incapacidade (na União Europeia, é mesmo a segunda causa mais comum, segundo a OMS). Ainda assim, uma parte significativa de quem precisaria de apoio nunca chega a procurá-lo – muitas vezes por não reconhecer, naquilo que sente, algo que “justifique” pedir ajuda, precisamente porque continua, por fora, a dar conta de tudo.
A máscara que também protege
Em psicanálise, há um conceito (proposto por Donald Winnicott) que ajuda a pensar nisto sem o reduzir a fraqueza ou a fingimento: a ideia de que todos construímos, em maior ou menor grau, uma espécie de fachada social, uma forma de nos ajustarmos ao que o mundo espera de nós. Na sua forma saudável, essa fachada é o que nos permite manter a compostura num dia difícil ou ser cordiais numa situação desconfortável, sem que isso nos custe a nossa identidade.
O problema surge quando essa fachada deixa de ser uma ferramenta e passa a ser tudo o que resta visível. É aí que aparece o “aluno exemplar”, o “profissional impecável”, o “pilar da família”, ou simplesmente aquele que “disfarça para sobreviver”. Mas, por dentro, já não sabe muito bem quem é para além do papel que desempenha. A fachada, que devia proteger algo mais verdadeiro por trás, acaba por o substituir quase por completo.
Os sinais que o corpo e as relações começam a dar
Este tipo de esforço raramente é gratuito. Mesmo quando a mente insiste em continuar, o corpo costuma ser o primeiro a assinalar que algo não está a ser dito: um cansaço que o sono não resolve, tensões físicas sem causa médica aparente, uma irritabilidade que surge sem aviso, dentre tantos sintomas. Nas relações, o preço aparece de outra forma, como uma sensação de distância mesmo perto de quem se ama, deterioração das relações, ou dificuldade em pedir ajuda precisamente a quem estaria disponível para a dar.
Nenhum destes sinais, isoladamente, significa que algo está profundamente errado. Mas o conjunto e a persistência deles contam outra história: muitas vezes, é a forma encontrada daquilo que não teve espaço para ser percebido e elaborado.
Não é sobre ter sucesso, nem sobre estar a fingir
Vale a pena ser direta aqui: isto não é um problema exclusivo de quem tem cargos de destaque ou vidas aparentemente bem-sucedidas. Também não é uma falha de caráter de quem “finge estar bem”. A tendência para continuar a funcionar e até tentar aparentar estar bem, apesar do sofrimento e do alto custo de quem o carrega, não escolhe currículo nem idade. Não é fraqueza, nem costuma ser uma decisão livre. É, muitas vezes, precisamente o oposto. Pode ser essa mesma fachada de que temos vindo a falar, já tão bem instalada que se disfarça como inacessível ou mesmo inexistente, ainda que com efeitos danosos reais; ou pode ainda decorrer de circunstâncias da vida que se impõem com fortes restrições.
Sejam ameaças sentidas por dentro e/ou vindas de fora, continuar a funcionar, tentando aparentar estar bem, é, muitas vezes, a única forma possível de se manter de pé, enquanto não há espaço, nem segurança, para outra coisa.
Por isso, o convite não é para “abrandar” ou “parar de fingir”, como se bastasse decidir isso. É para que exista um espaço onde essa fachada possa, finalmente, não ser necessária — nem que seja por um momento.
O que pode ajudar a mudar isto
A minha prática clínica não segue rigidamente nenhuma escola psicanalítica: a teoria serve o paciente, não o contrário. Isto significa que o processo terapêutico não começa por encaixar quem procura ajuda numa categoria ou num diagnóstico, mas por criar espaço para que a história de cada pessoa (com tudo o que ela tem de própria) possa finalmente ser ouvida, sem precisar de se justificar ou de parecer “suficientemente grave” para merecer atenção profissional.
Se este texto lhe soou familiar, se reconhece essa sensação de continuar a funcionar a um custo que já não consegue bem nomear, talvez valha a pena conversarmos.
Fontes consultadas:
- Direção-Geral da Saúde (DGS), Programa Nacional para a Saúde Mental
- Organização Mundial da Saúde (OMS), dados sobre carga global de doença e perturbações mentais na União Europeia
- Winnicott, D. W. — conceitos de verdadeiro self e falso self, tal como discutidos na literatura psicanalítica académica portuguesa e brasileira


