Autossabotagem: capa do artigo sobre quem trava constantemente a meio do caminho

Quer avançar, mas trava constantemente a meio do caminho: a autossabotagem e o que a psicanálise já sabe sobre ela

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Define o objetivo. Sabe o que precisa de fazer. E, ainda assim, encontra-se a adiar, a desistir a meio, ou a estragar precisamente aquilo que estava mais perto de conseguir. Muitas vezes isto acaba por ser pensado como preguiça ou fraqueza. Noutras vezes, pode até deixar a pessoa confusa quanto ao que fazer e como fazer exatamente, e quanto às razões de objetivos que antes lhe pareciam tão claros. Não é falta de vontade, de empenho, nem preguiça: é um padrão que se repete, mesmo contra a própria vontade consciente, e que a psicanálise chama de autossabotagem. Isto pode acontecer nos mais variados contextos de vida, desde pequenos objetivos do dia a dia até aos maiores, seja nas relações, no trabalho, nas finanças, na saúde. O que é decisivo para a pessoa insistir em funcionar desta forma são aspetos muito particulares e subjetivos, próprios de cada pessoa e da sua história de vida. Este comportamento é sintomático, resultante da ativação de defesas no indivíduo; por isso, não basta renunciar-lhe de forma simples para passar a funcionar de uma forma que favoreça mais a realização dos seus objetivos de vida. A autossabotagem é bem conhecida em psicanálise, e é mais antiga do que se costuma pensar: Freud já a descrevia há mais de um século, por exemplo no processo terapêutico, onde pacientes pioravam precisamente quando a cura estava mais próxima. Descreveu ainda os que fracassam precisamente ao triunfar. Lacan mostra como este tipo de comportamento pode servir a manutenção da falta (daquilo que ainda não foi conquistado), ou decorrer do apego ao sofrimento e a ganhos secundários escondidos. Anna Freud, por sua vez, trouxe a compreensão do medo ligado a exigências internas rígidas, e de impulsos agressivos internalizados contra si próprio e as suas metas (devido à incapacidade de os externalizar). Fairbairn acrescenta ainda a ideia do “sabotador interno” como mais uma via de compreensão das causas.

Quando o sucesso se torna insuportável

Freud descreveu, em 1916, um tipo de pessoa que ficava arruinada precisamente pelo êxito: alguém que trabalha durante anos para alcançar algo, e que, no momento em que finalmente o consegue, em vez de sentir satisfação, mergulha em angústia, tristeza, ou adoecimento. Não é ingratidão nem exagero. É que, para esta parte da mente, o próprio sucesso é sentido como uma ameaça. Poucos anos depois, em “O Ego e o Id” (1923), Freud aprofundou esta observação clínica com o conceito de reação terapêutica negativa: pacientes que, à medida que o tratamento avança e uma melhoria começa a aparecer, pioram de forma inesperada, como se algo dentro deles precisasse do sofrimento para continuar a existir.

Não é falta de força de vontade

A explicação para isto não é motivacional, é estrutural: por trás deste padrão está frequentemente todo um contexto sustentado ao longo da história de vida da pessoa, associado muitas vezes a medos e culpa inconsciente, a impulsos agressivos contra si e contra outros, ou a um apego ao fracasso por razões muito próprias. Não são sentimentos nem contextos que a pessoa reconheça ou saiba nomear: se assim fosse, seria mais fácil deixar de repetir um comportamento que lhe traz tantos prejuízos. Nalguns casos, isto aparece como uma exigência silenciosa de punição, imposta por aquela parte da mente que já explorámos noutro artigo a propósito da síndrome do impostor: o supereu. Quando o supereu é particularmente severo, o sofrimento passa a funcionar como uma espécie de pagamento; e alcançar o que se deseja, sem esse pagamento, pode ser sentido como intolerável. Autossabotar-se raramente é uma escolha livre. É, com mais frequência, a forma como a mente se organizou para manter algum equilíbrio interno, mesmo que o preço seja o próprio objetivo que a pessoa, conscientemente, mais deseja alcançar.

Como a autossabotagem aparece no dia a dia

Nem sempre a autossabotagem se parece com um grande fracasso dramático. Aparece, muitas vezes, em formas mais discretas: adiar indefinidamente algo que se quer de verdade, encontrar sempre uma razão para não avançar, criar pequenos conflitos precisamente quando uma relação está a correr bem, ou sentir um alívio estranho quando um projeto importante corre mal. Em qualquer uma destas formas, o mecanismo de fundo costuma ser semelhante: algo em falta, ou algo temido, que o sofrimento parece resolver melhor do que a própria realização.

O que pode ajudar a mudar isto

Tentar resolver a autossabotagem só com mais disciplina ou mais força de vontade costuma falhar, precisamente porque o problema não está aí, mas numa exigência inconsciente que a vontade consciente não alcança sozinha. Trabalhar isto em psicoterapia psicanalítica significa dar espaço para que as razões e os sentimentos que promovem essa forma de funcionar possam finalmente ser reconhecidos e compreendidos na sua origem, não silenciados à força, mas entendidos o suficiente para deixarem de precisar de se expressar através do próprio fracasso. Se reconhece este padrão de autossabotagem, travar-se precisamente perante algo que seria importante para a sua vida, talvez valha a pena conversarmos.


Fontes consultadas:

  • Fairbairn, W. R. D. (1952). Psychoanalytic studies of the personality. Tavistock Publications.
  • Freud, A. (2006). O ego e os mecanismos de defesa (F. Settineri, Trad.). Artmed. (Trabalho original publicado em 1936)
  • Freud, S. (1916). Alguns tipos de caráter encontrados no trabalho psicanalítico. In Obras completas.
  • Freud, S. (2011). O ego e o id (P. C. de Souza, Trad.). In Obras completas, volume 16: O ego e o id e outros textos (1920-1923). Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1923)
  • Lacan, J. (2008). O seminário, livro 7: A ética da psicanálise (A. Roitman, Trad.). Zahar. (Trabalho original publicado em 1959-1960)

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