“Já devia ter superado isto”: sobre perdas, lutos e términos que custam mais do que se espera

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Uma relação acaba, por vezes um daqueles términos sem explicação que mais custam. Um emprego termina. Os filhos seguem a sua própria vida. Há ideias e sonhos aos quais é preciso renunciar antes mesmo de se tornarem realidade. Muda-se de cidade e deixa-se para trás uma rotina, um grupo de amigos, uma versão de si mesmo que só existia ali. A idade avança, e com ela deixa-se para trás a infância e a juventude. Não é preciso morrer ninguém para haver luto, e ainda assim é frequente sentir que não se tem direito a esse nome: “não é uma morte, não devia doer tanto”, “já lá vão meses, já devia ter superado isto”.

A verdade é que o luto não é exclusivo da morte. É a resposta a qualquer perda significativa, seja ela uma pessoa, uma fase da vida, uma versão de si, um projeto, ou a imagem de um futuro que já não vai acontecer. E a psicanálise tem muito para dizer sobre porque este processo custa tanto, e demora tanto mais do que se gostaria.

O luto como trabalho, não como espera

Freud, em “Luto e Melancolia” (1917), descreveu algo que continua a ser central: o luto não é uma ferida que sara sozinha com o passar do tempo, é um trabalho psíquico ativo, e doloroso. A mente precisa de retirar, pouco a pouco, o investimento afetivo que tinha em cada memória, cada expectativa, cada detalhe ligado àquilo que se perdeu. Isto não acontece de uma vez, nem de forma linear: é feito memória a memória, e por isso é normal que o luto avance e recue, que pareça resolvido num dia e reabra no seguinte.

Compreender isto muda a forma como se olha para o próprio sofrimento: não é incapacidade de seguir em frente. É trabalho psíquico a decorrer, mesmo quando, por fora, não se vê nada a acontecer, ou até parece, por vezes, retroceder.

Quando o luto vem com culpa

Nem toda a perda é simples de sentir. A psicanalista Melanie Klein ajuda a compreender porque algumas perdas custam desproporcionalmente mais do que outras: quando a relação com o que se perdeu não era feita só de amor, mas também de ambivalência (algum ressentimento, alguma raiva, alguma coisa por resolver), o luto complica-se com um sentimento de culpa. Klein descreveu como este processo tem raízes muito precoces, e como, perante uma perda, a mente é chamada a reconstruir a confiança de que os afetos bons que tinha por aquilo, ou aquela pessoa, continuam válidos, apesar dos sentimentos contraditórios que também existiam.

A dor de uma perda não depende apenas do seu tamanho objetivo. Depende também da profundidade do vínculo afetivo que existia, aquilo que o psicanalista John Bowlby (referido mais adiante) descreveu como a força da ligação entre quem perde e o que foi perdido. Isso ajuda a compreender, por exemplo, a intensidade avassaladora do luto de uma mãe pela perda de um bebé, onde esse vínculo, ainda que breve no tempo, era já imenso. Depende, ainda, da complexidade dos sentimentos que ficaram por resolver, como descreve Klein. E é por isso que, por vezes, se sente mais dificuldade em fazer o luto por uma perda complicada, seja ela uma relação, uma fase de vida ou qualquer outra experiência significativa, do que por outra perda mais fluida, mesmo que esta segunda pareça, de fora, maior ou mais importante do que a primeira.

Términos sem explicação: o luto que fica sem resposta

Há uma crença comum de que um término só se torna possível de aceitar depois de se compreender, através de conversa suficiente com a outra parte, o motivo por detrás dele. Na prática clínica, isto raramente acontece assim. Muitas vezes essas conversas não chegam a existir, ou existem sem trazer verdadeira compreensão, e o término consuma-se sem que haja respostas.

O psicanalista britânico John Bowlby, uma das figuras centrais do chamado Grupo Independente (também conhecido como Middle Group) da Sociedade Britânica de Psicanálise, descreveu que o luto atravessa uma fase de protesto, em que a mente procura ativamente, de forma quase compulsiva, recuperar aquilo que perdeu ou compreender porque o perdeu. Quando essa procura não encontra resposta, porque a outra pessoa não explica, não está disponível, ou a explicação dada não é suficiente, esta fase tende a prolongar-se, dificultando a passagem para as fases seguintes, de desespero e, por fim, de reorganização.

Christopher Bollas, um dos nomes mais contemporâneos da teoria das relações objetais na psicanálise, ajuda a compreender uma outra camada do mesmo problema. Descreveu que há experiências que ficam registadas emocionalmente sem nunca se tornarem, de facto, pensáveis, aquilo a que chamou o “não pensado conhecido”: algo que se sente com intensidade, mas que a mente nunca chega a formular em pensamento articulado. Um término sem explicação pode ficar precisamente nesta condição.

Isto ajuda a explicar porque alguns términos continuam a doer, ano após ano, sem razão aparente. Deve-se à ausência literal do material psíquico necessário para o construir.

O psicanalista e psiquiatra Wilfred Bion, ao propor o conceito de capacidade negativa, descreveu algo que ajuda neste ponto: o desenvolvimento da capacidade de permanecer em incerteza, em dúvida, sem se apressar a preencher esse vazio com uma explicação forçada só para ter alguma resposta. Aplicado a um término sem explicação, isto significa que parte do trabalho não é encontrar, a qualquer custo, o motivo que nunca foi dado.

Términos que não são socialmente reconhecidos como luto

Uma parte do que torna alguns lutos mais difíceis é não terem, socialmente, licença para existirem. Ninguém traz uma refeição a casa de quem perdeu um emprego. Ninguém pergunta como está quem terminou uma amizade de anos. Ninguém sabe, muitas vezes, o que dizer aos pais que perderam um filho ainda na gestação ou no parto. O psicólogo Kenneth Doka descreveu este fenómeno, em 1989, como disenfranchised grief: um luto sem licença social, sem rituais, sem um tempo esperado, e sem alguém que valide que aquilo é, de facto, motivo de sofrimento. E, ainda assim, o trabalho psíquico que estas perdas exigem não é menor.

Quando o luto não avança: a dimensão patológica

O próprio Freud, em “Luto e Melancolia”, já distinguia um luto que, por mais doloroso que seja, tende a resolver-se com o tempo, de um processo que se atasca e não avança, ao qual chamou melancolia. Nele, é o próprio Eu da pessoa que fica empobrecido, e não apenas o mundo à sua volta. Esta distinção mantém-se atual: a psiquiatria reconhece hoje, na mais recente edição do seu manual de diagnóstico (DSM-5-TR, 2022), uma categoria específica para quando o luto não diminui de intensidade dentro do tempo esperado e continua, meses ou anos depois, a impedir de forma significativa a vida da pessoa, chamada transtorno de luto prolongado.

O que torna um luto mais suscetível a esta evolução não costuma ser o tamanho objetivo da perda, mas aquilo que ela reativa. A ambivalência que Klein descreveu é um desses fatores. Outro, descrito pelo psicanalista Michael Balint, é aquilo a que chamou a falha básica: um défice muito precoce no cuidado recebido, que pode permanecer latente durante anos e ser reativado precisamente por uma perda na vida adulta, ainda que essa perda, vista de fora, pareça proporcional e razoável de ultrapassar. Quando isto acontece, não é só a perda atual que está a ser chorada, é também, sem que a pessoa o saiba, algo muito mais antigo.

Reconhecer esta possibilidade não serve para rotular quem sofre uma perda intensa, serve para compreender que, quando um luto não avança de todo, ano após ano, isso raramente é falta de esforço ou de vontade: é sinal de que há ali algo que precisa de ser trabalhado com apoio adequado, e não de mais tempo de espera.

O que pode ajudar a mudar isto

Não é possível apressar o trabalho de um luto, nem contorná-lo com distração ou positividade. O que ajuda é ter um espaço de escuta clínica cuidadosa onde essa perda ou término, seja ela qual for, incluindo aquelas sem respostas ou sem reconhecimento social, possa ser verdadeiramente sentida e elaborada, com todos os sentimentos contraditórios que a acompanham.

Se está a atravessar uma perda, seja ela qual for, e sente que o tempo esperado para a superar já passou sem que isso tenha acontecido, talvez valha a pena conversarmos.

Fontes consultadas:

  • American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5.ª ed., texto revisado).
  • Balint, M. (1968). The basic fault: Therapeutic aspects of regression. Tavistock Publications.
  • Bion, W. R. (1970). Attention and interpretation. Tavistock Publications.
  • Bollas, C. (1987). The shadow of the object: Psychoanalysis of the unthought known. Free Association Books.
  • Bowlby, J. (1980). Attachment and loss, vol. 3: Loss, sadness and depression. Basic Books.
  • Doka, K. J. (1989). Disenfranchised grief: Recognizing hidden sorrow. Lexington Books.
  • Freud, S. (2013). Luto e melancolia. In Obras completas, volume 12: Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916) (P. C. de Souza, Trad.). Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1917)
  • Klein, M. (1996). O luto e sua relação com os estados maníaco-depressivos. In Amor, culpa e reparação e outros trabalhos. Imago. (Trabalho original publicado em 1940)

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