Onde eu estava quando me perdi? O peso do vazio que não se sabe de onde vem e a angústia que não tem nome

Compartilhe esse conteúdo

Uma divisão entre a vida exterior e a interior fica muito percetível para quem é atravessado pela sensação de vazio ou de falta dilacerante. Isso porque a vida, vista de fora, está cheia. Contudo, por dentro é o oposto. É um forte paradoxo: lá fora o trabalho corre bem, ou razoavelmente bem. As relações existem, os dias passam-se, as tarefas cumprem-se. E, ainda assim, por dentro, há algo mais do que um vazio passageiro ou uma falta pontual. É uma sensação de deserto ou de esvaziamento de si, como se uma parte da própria pessoa se tivesse retirado, sem aviso e sem palavras para o que aconteceu, e, muitas vezes, perde-se o rumo. Não é tristeza aguda, nem uma crise que se possa apontar a uma causa clara. É mais parecido com uma angústia inominável, um eco do nada, que persiste mesmo quando, objetivamente, “está tudo bem”.

Costuma-se falar deste vazio como uma questão de “falta de propósito”: como se bastasse encontrar a atividade certa, a causa certa, o sentido certo, para ele se dissolver. Por vezes é isso mesmo. Mas quando este vazio é mais intenso, mais persistente, ou mais antigo do que qualquer circunstância presente justificaria, a psicanálise oferece uma leitura diferente, e mais precisa: o principal não é ausência de propósito.

Quando o vazio não é a mesma coisa que a tristeza

Freud, em “Luto e Melancolia” (1917), fez uma distinção que continua a ser central para se entender este tipo de vazio. No luto, sabe-se o que se perdeu: uma pessoa, uma fase da vida, uma carreira, algo nomeável. O sofrimento é grande, mas identifica-se um contorno. Na melancolia, o próprio Eu é que fica empobrecido, como se uma parte da pessoa se tivesse esvaziado, sem que exista um objeto de perda claro para justificar isso. Não se sabe bem o que falta, só que falta.

Uma fachada que se tornou toda a casa

Já explorámos, a propósito da fachada social, o conceito de falso self, do pediatra e psicanalista Donald Winnicott. Ele descreveu o que acontece quando essa fachada deixa de ser uma ferramenta e passa a ocupar o lugar do que a pessoa sente genuinamente: não uma vida “menos autêntica”, mas um sentimento concreto de irrealidade e de futilidade, mesmo quando, à vista de fora, não há nada de errado. É possível cumprir tudo o que se propõe, e ainda assim ter a sensação de que quem cumpre não é, exatamente, quem se é: um estranhamento de si mesmo, dentro da própria vida.

Um terror sem forma nem nome

Wilfred Bion, psiquiatra e psicanalista, um dos autores que mais influenciou a minha forma de pensar clinicamente, descreveu algo que ajuda a compreender porque este vazio, tantas vezes, não vem acompanhado de palavras. Segundo Bion, há experiências emocionais tão intensas que a mente, sobretudo ainda em formação, não consegue transformá-las em pensamento: ficam por processar, sem forma, sem nome, como uma angústia catastrófica que não encontra contorno. Bion chamou a isto “terror sem nome”. Não desaparece só por não ter palavras. Fica, muitas vezes, como uma sensação difusa de ameaça ou de perder-se, numa espécie de buraco negro.

Quando o vazio começa em quem cuidou

O psiquiatra e psicanalista André Green descreveu ainda uma origem possível para este tipo de vazio, particularmente relevante: o que acontece quando uma figura de cuidado inicial, por razões que podem ser compreensíveis (uma perda, uma depressão, um sofrimento próprio), se retira afetivamente de forma significativa, mesmo continuando fisicamente presente. A criança sente essa ausência, mas não a consegue explicar, e responde com um desinvestimento próprio: desliga-se, também ela, dos seus afetos, para não ser invadida por uma dor sem nome. Green descreveu como esta experiência pode deixar, na vida adulta, uma espécie de vazio central em torno do qual a pessoa se organiza, e que reaparece mais tarde como uma anestesia emocional ou uma sensação de frieza e desligamento de si, mesmo em relações e contextos onde, objetivamente, há afeto disponível.

De onde vem este vazio

Freud, Winnicott, Bion e Green descrevem fenómenos distintos, mas todos apontam para origens semelhantes: falhas de cuidado numa fase precoce da vida, falta de acolhimento suficiente num momento em que era mais necessário, desinvestimento afetivo abrupto por parte de quem deveria estar disponível, ou ainda uma perda muito significativa, sentida antes de haver recursos internos para a elaborar. Em qualquer um destes casos, o resultado é semelhante: algo que precisava de ser sentido, contido e nomeado por outra pessoa, em fases precoces, não foi possível, e o que ficou, desde então, foi uma sensação angustiante, sem nome, de ausência dentro da pessoa: forma-se um vazio central em torno do qual toda a vida continua a acontecer, de alguma forma. É por isso que é possível, apesar de uma vida cheia por fora, sentir-se um deserto por dentro.

É frequente que este vazio pareça ter começado com um acontecimento claro da vida adulta: uma perda grande, uma rutura, um trauma recente. Esse acontecimento é real, e o sofrimento que traz também o é. Mas, muitas vezes, a intensidade com que aparece sinaliza algo mais: não é só o que aconteceu agora, é também uma base mais antiga e mais primordial que esse acontecimento veio reativar. É por isso que, com frequência, este vazio não cede se o olhar ficar só sobre o que o desencadeou: a origem mais funda, muitas vezes, vem de mais longe.

O que pode ajudar a mudar isto

Este tipo de vazio não costuma resolver-se com mais atividades, mais conquistas ou mais respostas ou cursos, que é, muitas vezes, exatamente o que já se tentou fazer. O que costuma ajudar é escolher um profissional com tato clínico apurado e humano, para criar um espaço, com tempo e contenção suficientes, para que aquilo que nunca teve forma possa, aos poucos, ganhá-la. Mais ainda, para que aquilo que foi posto de lado possa finalmente ter lugar para se expressar, não de qualquer forma, nem em algum molde pré-definido, mas respeitando a individualidade da pessoa.

Se já se perguntou onde estava quando se perdeu, se sente esse esmagador vazio ou falta que lhe puxa e que nem sabe explicar, talvez valha a pena conversarmos.

Fontes consultadas:

  • Bion, W. R. (1962). A theory of thinking. International Journal of Psycho-Analysis, 43, 306-310.
  • Freud, S. (2013). Luto e melancolia. In Obras completas, volume 12: Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916) (P. C. de Souza, Trad.). Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1917)
  • Green, A. (1988). Narcisismo de vida, narcisismo de morte (C. Berliner, Trad.). Escuta. (Trabalho original publicado em 1983)
  • Winnicott, D. W. (1990). O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Artmed. (Trabalho original publicado em 1965)

Compartilhe este artigo